Bibliotecas municipais serão obrigadas a ter Bíblia em braille.

Obrigatório, apenas a Bíblia – em braille (técnica que possibilita a leitura de deficientes visuais).

Coincidência ou não, o vereador Luciano Brito, o mesmo que quer dar 50 mil reais dos cofres públicos à Ordem dos Pastores para realizarem a Marcha para Jesus, que quer isentar as propriedades e imóveis das igrejas de impostos municipais, quer impôr às bibliotecas municipais a aquisição de bíblias em braille.

Que a Bíblia é um livro importante, não ouso discordar. Graciliano Ramos, jornalista, ateu, romancista e comunista brasileiro, tinha como leitura preferida a Bíblia, por encontrar nela uma trama de histórias recheadas de aventuras e lições importantes para a vida. Não vejo problema algum que o nobre vereador proponha tal lei num município cujas bibliotecas públicas, em seus vastos acervos em braille de clássicos da literatura universal e nacional, não possua um exemplar da Bíblia em tal formato.

Tirando este risível exemplo da velha estratégia de catequização via legislativo, o eleitorado com deficiência visual de Maringá teve apenas um outro projeto sobre o tema (dos disponíveis no portal da Câmara): Dr Manoel (PCdoB), propôs lei obrigando a prefeitura a expedir correspondência oficial direcionada aos maringaenses com deficiência visual em braille, do resto, salvo engano ou desatualização no sistema de informações da casa de leis daqui, mais nada.

Fico me perguntando, qual será o tamanho do acervo público de livros em braille nas bibliotecas públicas municipais de Maringá, caro Luciano Brito?

O grande questionamento não está em obrigar a biblioteca a ter livros em braille, mas sim, obrigá-la a ter apenas um livro em braille, a Bíblia. A preocupação é com a cultura e a formação dos maringaenses que não enxergam ou apenas com suas almas?

Pensando assim, não seria mais justo que a proposição fosse de que as bibliotecas municipais tivessem um rico acervo em braille, no qual, também a Bíblia?

Na terra do pensamento único e umbiguista, onde reina a promiscuidade entre o Estado e a Igreja, quem não pode enxergar terá garantido o direito de ler apenas a Bíblia.

Que as intenções fossem as melhores, senhor vereador, e não a da velha catequização; proporia um programa de compra de livros em braille e, além da Bíblia, ampliaria as possibilidades dos maringaenses com deficiência visual de desbravarem novos mundos, a história de nosso país, o Retrato de Dorian Gray, o Elogio da Loucura, o Vampiro de Curitiba, O Nome da Rosa, Macunaíma, Memórias Póstumas…
Exemplar em braille de O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry

Exemplar em braille de O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry

Encontrei imagens de um exemplar em braille do Pequeno Príncipe, do Saint-Exupéry. Um livro também muito edificante, e que todas as crianças deveriam ter o direito de ler – além da Bíblia e de quantos mais ela quisesse, claro. Na obra de Saint-Exupéry, das tantas pequenas e sábias lições que dá  e aprende o principezinho, encontrei essa: “Conhecer não é demonstrar nem explicar, é aceder à visão”.

Aos nossos pequenos maringaenses que veem apenas com a ponta dos dedos, lhes limitaremos a conhecer apenas a Bíblia?

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