Parque do Ingá: intuitivismo administrativo, verba federal e o condicionamento popular

foto de Emílio Barbosa

Será votado em segunda discussão nesta terça-feira (13) o Projeto de Lei de autoria do Executivo Municipal (Barros e Pupin) que prevê a exploração comercial privada da lanchonete, loja de souvenir, sanitários, tirolesa, arvorismo, bicicletas, redário, guerra d’água, quiosques de massagem, estacionamento, carrinhos elétricos, pedalinhos e área de administração, todos situados no Parque do Ingá.

Tais espaços de convivência vem sendo revitalizados ou construídos letargicamente desde 2009, quando o Parque foi fechado para reforma, e desde sua inauguração em 2011, por pressão das entidades e meios de comunicação, ainda não foram totalmente concluídos. Para isso, o Ministério das Cidades repassou a gestão Barros/Pupin o montante de R$ 2.287.088,10.

Os equipamentos que serão entregues a iniciativa privada também foram adquiridos com verbas Federais. Os 10 pedalinhos custaram R$ 45,420,00, além de 09 carrinhos elétricos ao custo de R$ 3.916,00 cada (02 deles foram roubados do almoxarifado central do Município durante a onda de assaltos que o mesmo sofreu em 2011).O Parque completou 41 anos em 20012, e é uma das áreas verdes deixadas pela Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná na região, e ainda conserva centenas de árvores nativas e espécimes da fauna local, como o macaco-prego, que sofre com a falta de trato e se arrisca em busca de alimentos diariamente na pista de caminhada que circunda a mata.

Uma gestão intuitiva

Intuitivamente, Sílvio Barros resolveu terceirizar – a toque de caixa – a administração do Parque do Ingá. Em entrevista a Gazeta Maringá, o prefeito explicou: “Eu pedi para que essa discussão entre em caráter de urgência nas sessões da Câmara porque esse tipo de licitação demora, em média, 45 dias para ser concluída. Como eu que inventei essa história, quero que o processo seja concluído no meu mandato. Não quero deixar nada pra trás”.

Intuitivamente, Sílvio Barros decidiu que o Parque do Ingá deveria deixar de ter caráter contemplativo e que passasse a ter uma função interativa: “Antes ele era contemplativo. Na revitalização eu entendi que precisava transformá-lo em interativo porque eu acho que é mais atraente. Acho que assim o parque pode se tornar um ponto turístico de referência, inclusive na região. Então, existiu um esforço da nossa parte em colocar essa ideia em prática nos últimos anos” – ainda para a Gazeta.

Escapa ao feeling de empreendedor do turismo do prefeito o contexto em que Maringá foi brindada com o parque em questão, bem como os demais que compõe o desenho urbano da cidade desde as linhas de Jorge de Macedo Vieira. Numa área de mata nativa que veio ao chão quase que por inteira, tanto para a abertura de estradas e construção de casas quanto para o plantio de café, restaram três áreas ínfimas de mata nativa: Parque do Ingá, Horto Florestal e Bosque 2 – não por bondade da companhia colonizadora, mas para cumprir diretrizes legais que, já naquela época, exigiam remanescentes de floresta aos empreendedores. Também aconteceu na cidade de Cianorte, onde a reserva de remanescentes de mata nativa foi mantida no entorno do traçado urbano pela Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, o Parque Cinturão Verde de Cianorte, que nos últimos 07 anos teve elaborado sobre si um Plano de Manejo, instrumento esse que libertava essa área verde da intuição equivocada de gestores que entendem a coisa pública como própria. Com base em pesquisas e análises de inúmeros profissionais das mais diversas áreas do conhecimento, além da participação da população do entorno do Parque Cinturão, hoje, a gestão desta área de conservação segue um planejamento.

Estuda-se a possibilidade de elaboração de um Plano de Manejo também para algumas áreas verdes de Maringá, dai me me pergunto, qual o motivo de não produzirem um Plano Integrado de Manejo das Áreas Verdes de Maringá? Durante a elaboração de um plano como este, certamente especialistas poderiam dizer com mais propriedade sobre o impacto ambiental dessa mudança no conceito do Parque do Ingá de contemplativo para interativo. Se seria viável a exploração comercial de modalidades como o arvorismo e a tirolesa. Longe dos intuitismos, dados e relatórios de especialistas poderiam dizer da viabilidade ou não da implementação destas práticas.

A ingerência proposital da o aval para a terceirização

De forma emblemática, a Administração Pública de Maringá gravou no imaginário popular que é incapaz de gerir o Parque do Ingá, que ele é um problema para a municipalidade, e que a única forma de salvá-lo é recorrer a magnificência da boa, velha e amiga iniciativa privada.

Pensar em administrar Maringá apenas indo aos chás da tarde da ACIM, mantendo os programas estaduais e federais de assistência e viajando ao exterior para bradar aos quatro ventos como Maringá é sustentável não basta.  A gerência de espaços públicos como o cemitério municipal, os parques, praças e prédios públicos não é apenas inaugurá-los e socorrê-los em dispensas de licitação quando os mesmos não tem mais condição de funcionamento. Nem o prédio da biblioteca municipal ficou caindo aos pedaços de uma hora para a outra, nem as vagas do cemitério público acabaram por causa de um desastre natural, e nem o Parque do Ingá deteriorou-se com pó de pirlimpimpim. As coisas chegaram ao estado que chegaram por ingerência – talvez, na dúvida do termo, por incompetência administrativa. No caso do Parque do Ingá, a resposta a tal ingerência / incompetência foi ditar à população a máxima de que “a melhor coisa para o Parque do Ingá é a privatização, já que a prefeitura não da conta”

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